Esporte, entretenimento e credibilidade: os desafios de um jornalismo que não para de mudar
Atualizado: 6 de dez. de 2025

Bruno Klayn
A relação entre esporte e entretenimento nunca esteve tão estreita — e é justamente nesse encontro que o jornalismo esportivo tenta se reinventar. Na mesa “Esporte e entretenimento”, realizada no dia 12 de novembro e mediada pelos alunos Gabriela Costa e João Pedro Muniz, os convidados Aline Falcone, João Pedro Fragoso e Luciana Zogaib exploraram como manter o rigor jornalístico em um ambiente dominado por novas linguagens, múltiplas telas e influenciadores que falam para milhões.
A conversa se estruturou a partir de três questões centrais: como o novo cenário do jornalismo transformou o jornalismo esportivo; como os convidados chegaram ao jornalismo esportivo e quais os limites da descontração no novo modelo de transmissões. A partir desses eixos, desenhou-se um panorama das mudanças, tensões e dilemas que marcam o jornalismo esportivo atual.
Como o novo cenário do jornalismo transformou o jornalismo esportivo
Logo na primeira questão, o debate ganhou força. A narradora Luciana Zogaib refletiu sobre a transição entre o jornalismo tradicional — marcado pela formalidade do rádio — e o ambiente atual, tomado por transmissões despojadas e linguagens híbridas.
Para ela, o problema não está na inovação, mas na confusão de identidades. “O sucesso da CazéTV fez muitos veículos tentarem copiar uma linguagem que não é deles. Cada mídia precisa entender sua identidade”, afirmou.
Zogaib também problematizou o avanço das TVs de clubes, que entregam conteúdo institucionalizado e sem o contraditório que caracteriza o jornalismo. Já Aline Falcone ampliou a discussão ao destacar o excesso de vozes e plataformas. Para ela, num mundo onde qualquer pessoa pode produzir e divulgar conteúdo, a responsabilidade se torna ainda mais central: “O que temos de mais valioso é a credibilidade”, enfatizou.
João Pedro Fragoso, por sua vez, reconheceu que o novo ecossistema democratizou o acesso — sobretudo após a pandemia —, mas trouxe riscos significativos. Para ele, “antes, você ligava rádio ou TV sabendo que a informação era confiável. Hoje, com TikTok e Instagram, precisamos filtrar mais”. Ele enxerga o momento atual como uma porta aberta para novas possibilidades, desde que acompanhadas de senso crítico.
O início no jornalismo
Fragoso sonhava em ser jogador e chegou a fazer teste no Vasco. Quando percebeu que não seguiria carreira nos gramados, buscou referências jornalísticas e encontrou no projeto Futebolzinho sua primeira experiência de responsabilidade. Criou blog, trabalhou na Band e, depois, consolidou-se no O Globo.
Zogaib cresceu frequentando o Maracanã com o pai, mas encontrou obstáculos em um ambiente hostil às mulheres. Criou seu próprio blog, participou de uma webrádio e aceitou narrar pela primeira vez porque alguém acreditou nela. Foi finalista do concurso Narra Quem Sabe, se autopatrocinou para trabalhar e narrou até final de Libertadores in loco. Hoje, vive da narração.
Aline Falcone narrou diversas experiências: rádio, TV, reportagem, ancoragem e bastidores. Segundo ela, justamente a diversidade de funções deu a base para seu trabalho atual. Para ela, “fazer muitas coisas diferentes deu visão profissional; cada área ensinou algo que uso até hoje.”
Os limites da brincadeira e da descontração
A discussão sobre CazéTV, GEtv e a linguagem irreverente tomou grande parte do debate — e trouxe opiniões complementares, mas não idênticas. Luciana Zogaib apontou preocupação com excessos, especialmente palavrões e exageros:
“Dá para ser descontraído sem ser escrachado. Não existe linha fixa, mas cuidado nunca é demais”, afirmou.
Já Fragoso enfatizou a importância da autenticidade. Para ele, não adianta forçar uma persona porque está na moda. “O público percebe”, alertou. Aline destacou que o mercado também atua como filtro. “Patrocinadores estabelecem limites. A linguagem precisa ser adequada ao público, ao momento e ao veículo”, complementou.
A pergunta do público sobre narrar um jogo do próprio time também gerou reflexão. Zogaib explicou que aprendeu a separar emoção e profissionalismo: “Quando estou trabalhando, não sou torcedora. Mas é claro que existe um peso afetivo quando é o meu time.”
A mesa mediada por Gabriela Costa e João Pedro Muniz mostrou que o jornalismo esportivo vive uma fase de expansão acelerada — com novas linguagens, múltiplos atores e fronteiras borradas entre informação e entretenimento.
Ao mesmo tempo, o debate revelou um consenso entre os convidados: credibilidade, responsabilidade e autenticidade continuam sendo o alicerce do jornalismo, independentemente da plataforma. Num cenário em que todo mundo produz conteúdo, o desafio não é acompanhar as tendências, é não perder o que faz do jornalismo uma prática essencial.




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