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Debatedores enfatizam a potência da subjetividade no jornalismo, em mesa sobre Grande Reportagem 

27 de nov. de 2025
4 min de leitura

Foto/Equipe Fotográfica Controversas
Foto/Equipe Fotográfica Controversas

Pedro Langer

 

O jornalista corre contra o tempo. Seja para fechar uma matéria para um jornal diário ou apurar com mais densidade, o prazo é sempre visado. Conciliar o fechamento com uma apuração rigorosa e sensível não é coisa fácil. Estes e outros desafios da grande reportagem foram abordados na XIX edição do Controversas, tradicional seminário organizado por estudantes de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), com a coordenação da professora Larissa Morais.

 

No coração da universidade, Caio Barretto Briso, Luiza Sansão e Tiago Coelho, todos jornalistas com experiência em coberturas aprofundadas, foram recebidos sob aplausos e apresentações calorosas dos mediadores da mesa, os estudantes de jornalismo Hilana Mello e Marcus Gralha. O evento aconteceu no auditório do bloco G, no campus do Gragoatá, ao entardecer de uma quarta-feira. Os convidados compartilharam com os estudantes as experiências que tiveram, entre a cobertura diária e a grande reportagem.

 

Paixão que move


“Quanto maior o mergulho, melhor. Nos últimos meses, eu fiquei sem fim de semana porque estava trabalhando no roteiro de uma série documental sobre o Flamengo de 1995. Eu vivi naquela época, mas não tinha pesquisa nem substância sobre isso. Nem sou flamenguista, mas fiquei obcecado pela história e agora o algoritmo do meu Instagram só me mostra coisas de Flamengo, Campeonato Carioca e Xuxa”, contou Caio, que trabalhou em veículos como O Globo, Folha De São Paulo, Veja e Isto É. A série tem previsão de estreia para dezembro deste ano pelos canais Globoplay e do SporTV.

 

Para ele e seu colega de palco, Tiago Coelho, a obsessão, ou a paixão por uma grande história, é um dos motores para quem trabalha com grandes reportagens. Relembrando o perfil do cantor João Gomes, que Tiago escreveu para a Revista Piauí – onde trabalha desde 2015 – Caio falou do tio que era vaqueiro e da família que é toda do sertão do Rio Grande do Norte. “Eu li e percebi que ele ficou obcecado pela história que ele estava contando”, comentou.

 

Estar presente


Essa atenção também está na presença e na disponibilidade do jornalista. Luiza Sansão, que tem experiência como repórter com foco em direitos humanos, considera que ir aos locais dos fatos é importante, ainda mais para cobrir lugares que sofrem com a estigmatização. “Eu não vou à favela somente quando tem operação, vou também para sair, para ver alguma manifestação cultural. Como eu vou contar aquela história sem me permitir viver parte da experiência daquelas pessoas?”, questionou.

 

A feitura de uma grande reportagem também demanda uma sensibilidade maior no olhar. Para Tiago, é preciso acreditar na pauta e olhar para onde ninguém está olhando, disse ao lembrar do perfil que escreveu sobre o ônibus 474, acompanhando o trajeto por dentro.

 

A experiência de Luiza mostra como essa sensibilidade na presença e no olhar podem recompensar o profissional. Ela contou o que percebeu durante a cobertura da Operação Contenção, que aconteceu no dia 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, Zona Norte do Rio, e deixou mais de 120 mortos.

 

No dia 30, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, visitaram os complexos e se reuniram com a Central Única das Favelas (Cufa). “Depois houve uma coletiva de imprensa. Eu e o Caco Barcellos não fomos. Achei que não tinha nada para ouvir das ministras que eu não pudesse ouvir dos moradores, que estavam vivendo o que tinha acontecido”, afirmou Luiza.

 

Ao preferir o contato com os moradores, descobriu detalhes da brutalidade. “As crianças estavam acompanhando os adultos e um menino pediu para falar que ‘os policiais estavam com muita raiva, que começaram a partir para cima das crianças e que havia um pó branco embaixo do nariz deles”, contou ela.

 

A força da subjetividade


Tiago disse acreditar que a saída para uma crise no jornalismo é insistir na força da narrativa. “Precisamos entender que não dá para competir com rede social e que é melhor você chegar depois com um trabalho bem feito”, criticou. “Estamos numa crise de pobreza da informação. É importante que voltemos a entender o jornalismo como um trabalho intelectual”, disse, apontando caminhos para a reinvenção da área em tempos de cacofonia.

 

O trabalho de uma grande reportagem é mais do que uma aglutinação de fatos. “Você precisa acreditar na pauta e buscar maneiras para envolver o leitor. Eu uso técnicas da literatura e do cinema para trazer o leitor para dentro da história”, indicou Tiago ao falar da forma como trabalha as reportagens que produz.

 

Na visão de Caio, a produção de uma grande reportagem passa também por um processo criativo. “Acho que os repórteres conversam pouco sobre isso. Eu sou um pouco mais caótico, sempre aquém do desejo de ser mais organizado”, confessou.

 

Caio e Luiza compartilham a visão de que apuração e escrita são processos indissociáveis na realização de uma grande reportagem. “Podemos pensar em estruturar o trabalho que temos para fazer independentemente do tempo de apuração. Em vez de deixar para escrever depois de apurar tudo, você começa a escrever de uma vez”, sugeriu aos estudantes.

 

Negociação e riscos


Nem sempre a ideia de uma grande reportagem é bem abraçada pelo veículo onde se trabalha. A ideia de negociação é permanente. “Às vezes o editor não vai ter a mesma visão que você sobre uma pauta, então cabe ao jornalista sustentar a história, insistir”, apontou Caio. “O repórter tem muita força”, completou.

 

Luiza também alertou para os riscos que corre enquanto exerce a profissão. Relatou já ter recebido mensagens ameaçadoras de policiais e políticos por conta das reportagens que escreveu e das pautas que investigou. Mas, segundo ela, é um risco inerente à própria atividade. Nesse processo, jornalista precisa se cercar de fatos que comprovem o que a reportagem mostra.

 


 
 
 

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